Segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

a grande desinformação científica nacional

Foi interessante assistir ao debate, tornado público na TVI24, entre o senhor Conselheiro Nacional para a Ciência e dois indivíduos que nada sabem sobre a mesma e que, pouco ou nada aprenderam sobre o dito assunto. E o senhor Conselheiro falou de Factores de Impacto. E de bolseiros. E de É Érre Cês. E de outras coisas complicadíssimas aos olhos do jornalista e do economista que o escutavam como escutariam o Oráculo de Delfos, para não falar do grande público. E assim todos escutámos o senhor Conselheiro enquanto afirmava, com todas as certezas do mundo, que a grande maioria dos investigadores é medíocre porque não publica nas revistas em que ele próprio tanto deve publicar que já é para elas o que a Paula Bobone é para imprensa cor-de-rosa. E disse ainda que investigar em Ciências Sociais e Humanidades de pouco serve para o país. E que os investigadores devem trabalhar por ‘encomenda’, isto é, se tiverem o nível de publicar apenas nas mesmas revistas (e na mesma área científica, suponha-se), que o senhor Conselheiro Nacional.

 

Esquece-se o senhor Conselheiro Nacional que, há cerca, de duzentos anos atrás, um bando de betinhos andava pelas academias inglesas a brincar com uma atracção de circo, uma tal de ‘electricidade’ quando, na verdade, se se tratassem de verdadeiros patriotas, deveriam andar a cavar batatas ou a escrever sobre os benefícios do tabaco que tanto lucro gerava à coroa imperial. E que tal discutirmos essa carolice, feita sem ‘encomenda’ ou perspectiva de lucro, de dois tipos elaborarem a estrutura tridimensional de uma tal coisa sem aparente finalidade para o grande público chamado ácido desoxirribonucleico? Para não falar daquela gaja que tinha andado a sacar fotografias de raios-X (imagine-se!) a tal coisa.

 

Esquece-se, e emprego aqui o verbo esquecer pois desconhecer é grave para um homem de Ciência como o senhor Conselheiro Nacional, que a gestão dos recursos pesqueiros, por exemplo, assenta em ciência publicada em revistas científicas internacionais com um factor de impacto de um ou dois. Assunto que, o senhor Conselheiro habituado a publicar, certamente, em revista com dez, vinte ou trinta vezes esse dito factor de impacto, não tem qualquer capacidade para entender. Talvez também não saiba o senhor Conselheiro, nem ficaram a saber os outros dois senhores que o ouviram ou o público em geral, que Patterson publicou o seu artigo sobre essa coisa insignificante que é o envenenamento global de chumbo pelo uso de combustíveis aditivados, numa revista que ainda hoje tem um factor de impacto de dois. Sim, na altura a Science e a Nature já existiam e foram precisas décadas para que Patterson conseguisse publicar nestas revistas as suas conclusões. Antes disso, limitou-se a publicar em revistas ditas menores, nas tais que o senhor Conselheiro entende destinarem-se a investigadores menores, tendo passado uma boa porção da sua vida científica em tribunais porque, precisamente se recusou a entregar a sua ciência à ‘encomenda’ de grandes empresas petrolíferas e aos governos que as flanqueavam.

 

Desconhece o grande público, e assim o senhor Conselheiro faz por acontecer, que a Ciência a que os cidadãos devem mais trinta ou quarenta anos de esperança média de vida não foi feita por ‘encomenda’ de nenhuma empresa ou governo, mas sim pelo génio, vontade e esforço de uns quantos homens e mulheres que se dedicaram e dedicam ao seu trabalho por pura paixão pela descoberta. Desconhece o grande público que cada medicamento tem por trás ciência fundamental que não foi paga por nenhuma farmacêutica. Desconhece o grande público que hoje há um cientista, certamente bolseiro, precário, a quem o senhor Conselheiro de estado recomenda que mude de vida, que publicou numa revista com um índice de impacto ridículo aos olhos do Conselheiro a descoberta de uma nova molécula extraída de um qualquer verme aparentemente insignificante e que daqui a cinco, dez ou quinze anos poderá ser a base de síntese de um fármaco que irá revolucionar a luta contra o cancro.

 

Do grande público, não se espera que saiba nada disto. Nem dos economistas. Nem do primeiro-ministro, cujo cinzento passado académico não lhe confere qualquer mérito para se sentar à mesma mesa do que qualquer jovem candidato a doutoramento. No entanto, do senhor Conselheiro esperar-se-ia mais. O que sucede é que é que o senhor conselheiro sabe, e bem, como funciona a Ciência. E sabe que a Constituição defende o livre direito à criação intelectual, artística e científica. O que lhe convém, contudo, é colocar-se a ele próprio num pedestal destinado às elites, ou assim o julga, que só publica Sciences e Natures. Pois desengane-se, senhor Conselheiro, que o mundo pouco ou nada se irá lembrar de si como cientista. Ao contrário do bolseiro, precário, sem direitos básicos como o subsídio de desemprego, sem futuro ou perspectivas e que você pretende que vejam como uma espécie de chuleco a viver à custa de fundos públicos, que descobre uma substância qualquer extraída de um verme e que, daqui a uns anos, talvez lhe venha a salvar a vida.

 

Harpad

 

 

Biólogo.

Precário científico, vulgo investigador.

Indivíduo que se refere a ele mesmo como Investigador em Ciência e não como Cientista pois Cientistas foram Einstein, Marie Curie e Carl Sagan. E Newton. E Faraday (que nem formação académica tinha). E Lynn Margulis. E que recomenda que o senhor Conselheiro tenha a humildade de fazer o mesmo.

 

 

P.S. Se o senhor Conselheiro Nacional está tão preocupado com o bom uso dos fundos públicos que são utilizados para manter a investigação em Portugal, porque não dedica o seu tempo a explicar ao grande público a razão pela qual tantos inamovíveis de produção académica e científica nula se mantém nas escolas e laboratórios do estado. E interrogue-se também que fenómenos de compadrio político, familiar e negócios de aventais permitiram as suas colocações, em lugar do mérito.

 

Outro P.S. Explique também ao grande público, senhor Conselheiro, o motivo pelo qual a Dinamarca não é propriamente uma potência científica internacional. Ou a Hungria. Ou mesmo a Escandinávia. E explique, já agora, por que motivo Oxford (essa universidadezeca) limpa o traseiro às sua noções de ‘ciência por encomenda’.


publicado por Harpad às 23:59
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