Sexta-feira, 25 de Março de 2011

XXI Ocidental - III

Interrogo-me frequentemente quem terá nomeado os doutos políticos, jornalistas, economistas e outros especialistas que nos bombardeiam em cadência horária com as suas opiniões, comentários e razões. Todos opinam, todos se fundamentam com o quer que lhes pareça conveniente mas a verdade, a história, essa, permanece intocada, encerrada no seu túmulo.

 

A essência do neo-liberalismo é o curto-prazo. Na verdade, este é o único conceito que as massas entendem. O lucro que preciso, hoje. O carro novo que quero, hoje. O belo tacho, hoje. Enfim, pode-se resumir esta essência numa palavra bem portuguesa: o Desenrascanço. As causas políticas e sociais do estado de Portugal, da Europa e do mundo capitalista em geral são também assim justificadas, diante da vista grosseira do curto-prazo.

 

Para os comentadores, tudo é simples. O país está doente. A causa: Sócrates. A solução: privatizar o que se pode privatizar, flexibilizar o mercado de trabalho, enfim deixar cair o estado social e transformar o mercado de trabalho num antro de precariedade. Mas já lá iremos. O pensamento neo-liberal, como já referi, é totalmente incapaz, por natureza, de formar um raciocínio numa escala de tempo mais alargada do que o prazo de governo. Esquecem-se os comentadores, no entanto, de vários dados importantes:

 

1) Quem nos transformou num paraíso da mão-de-obra barata para os empresários alemães foi o douto Cavaco, actual PR. Previsivelmente, para todos com mais testa do que o vulgar capitalista, o alargamento da UE a lesta trouxe, a médio prazo (lá está), um mercado de trabalho apetecivelmente mais barato. Será difícil recordar o fecho, quase diário de fábricas pertencentes a multinacionais centro-europeias há alguns anos atrás? Quantas vezes vimos os telejornais abrirem a sua emissão com imagens dos trabalhadores desolados à entrada de uma qualquer fábrica têxtil de onde os patrões, em muitos casos, tinham já retirado o equipamento sem que os operários soubessem sequer das intenções de encerramento? A culpa foi do Guterres? Do Sócrates? Não.

 

2) Caro precário: quem inventou os recibos verdes não foi o PS. Foi o PSD, mais uma vez, nas mãos do douto Cavaco.

 

3) Para continuar a falar deste senhor, convém relembrar que foi durante os seus mandatos que assisti a cargas da polícia sobre manifestantes. Exemplos: secos e molhados. Também foi graças a este senhor e à senhora Ferreira Leite que fiquei conhecido como “rasca” (sim, eu estava lá, mas não mostrei nenhuma parte impúdica de mim mesmo). Fala-se hoje de manipulação da imprensa. Esquecemo-nos dos falados telefonemas de um tal de Marques Mendes para a RTP?

 

4) A nossa economia não está na mão do estado. Muito menos nas mãos dos trabalhadores. Ao contrário do que pensa um fedelho qualquer do CDS que não me lembra agora o nome, não vivemos num PREC nem mesmo pós-PREC. A nossa economia continua a pertencer aos Mellos, Champalimauds, Espírito-Santos, Azevedos, Martins, e outros mais ou menos brasonados que já se sentavam à mesa do Estado Nove e que simultaneamente o alimentavam e dele se nutriam. Fugiram de medo com o 25 de Abril para viver vidas de exílio faustoso no Brasil, para regressarem pelas mãos do senhor Soares, com uma generosa recompensa monetária, diga-se. Estes senhores estão cada vez mais ricos. Quem tem dúvidas tenha a bondade de consultar as estatísticas dos mais ricos de Portugal reveladas recentemente. Curioso ninguém questionar estes clãs sobre a sua responsabilidade na economia e negócios deste país. Curioso também que a ninguém pareça obsceno que estes senhores enriqueçam desmesuradamente enquanto a classe média se encolhe. Curioso que ninguém se indigne com a mudança da Sede do Pingo Doce para a Holanda, para que assim o dinheiro dos clientes portugueses sirva apenas para o pecúlio dos contribuintes holandeses. Ninguém pergunta também, se a economia este tão má e se é preciso flexibilizar o mercado de trabalho, porque motivo os bancos de cá continuam a bater recordes de lucro e têm tantas benesses fiscais. Talvez devêssemos também perguntar sobre os esquemas de mascarar lucros através de pseudo-empresas subsidiárias, constantemente em falência técnica, de que se blindaram os grandes grupos económicos para não pagar impostos. Curiosos que esta gente venha regularmente, e principalmente através dos PSDs, exigir que se precarize ainda mais a mão-de-obra quando, aparentemente, dinheiro não lhes falta o luxo. São os nossos intocáveis, medrosos apenas da memória dos dois únicos casos, em toda a história da humanidade, em que os verdadeiramente poderosos verdadeiramente perderam: 1789 e 1917. Enoja-me pensar que um partido dito socialista também nada tenha feito para contrariar os todo-poderosos mas não me surpreende quando nem Guterres nem Sócrates os tiveram no sítio sequer para fazer frente aos seus próprios "boys".

 

5) “Devemos pagar devidamente aos trabalhadores pois eles são os consumidores”. Não, não foi Marx quem o disse. Nem Engels. Nem Lenine, Trotski, Cunhal ou mesmo Robespierre. Quem o disse foi um dos maiores capitalistas de todos os tempos, um tal de Henry Ford. Um indivíduo modelar enquanto empreendedor, ao conseguir encher-se de dinheiro nazi antes da entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial e, depois disso, dos contribuintes norte-americanos, cerca de 400 000 mil dos quais nunca regressaram à sua terra. Este pressuposto há décadas que foi esquecido e recalcado, mesmo depois da crise de ’29, causada pela falta de escoamento de produtos norte-americanos para um Europa em ruína absoluta. Mais uma, o pensamento a curto-prazo em acção: hoje aumenta-se o IVA, corta-se nos salários, obriga-se o cidadão comum a pagar por saúde, educação e transportes privados. Parece interessante mas alguém se deve estar a esquecer do efeito a médio prazo que retirar poder de compra aos cidadãos-comuns irá colapsar o comércio do qual toda a economia depende.

 

6) Porque quer, assumidamente ou não, a direita o FMI? Simples: trata-se da peça que faltava para o paraíso governativo. Já lhes cheira a maioria absoluta, têm um presidente amigo ou que, no mínimo, não chateia, podem culpar tudo no Sócrates e fazer nada pela qualidade de vida dos cidadãos dizendo que nada podem fazer, que o FMI manda e o BCE quer. Quem ganha com isto? Os PSDs e a nata da sociedade por trás deles (vede acima).

 

7) Salazar era um gajo tão porreiro e liderou tão bem que um milhão de Portugueses se foi embora do país, seguramente sem o intuito de ensinar ao resto do mundo o benzito que se fazia em Portugal. É também curioso pensar que esses senhores e os descendentes constituem uma amostrinha do mais conservadorzito e retrógrado que por aí anda. Andam também por aí uns mentecaptos que dizem que isto estava melhor antes do 25 de Abril. Nem antes do 25 de Abril nem há 20 anos atrás. Éramos no tempo da Velha senhora e da maioria absoluta do senhor Dom Cavaco, mais acomodados, sem as chatices de eleições, oposições sem ter direito a essa suprema complicação que é a capacidade de pensar. Aparentemente, o comodismo faz muita gente feliz.

 

8) Foi um golpe de génio, há que admiti-lo: transformar uma crise do capitalismo numa crise do estado social. O senhor Daniel Bessa que me desculpe, mas não lhe reconheço mais inteligência, sapiência ou outra ciência do que a mim próprio para engolir esta e outras. Não interessa, contudo. Façamos as contas a todos os défices de todos os países capitalistas do mundo e percebamos que vivemos num castelo de cartas que mesmo com este tipo de tapa-remendos não tem mais do que uma geração de vida. Seria dispensável mas parece inevitável: ninguém aceita reformas no sistema económico nem os ricos deixam que lhes vão aos bolsos. Enquanto isso, a riqueza continua a desaparecer dos mercados até ao final rebentar da bolha.

 

9) Criar ricos gera pobreza. Lamento mas é uma verdade aritmética. Um mais um são dois, independentemente de o capitalismo permitir que possam ser três, quatro ou mesmo zero, conforme a disposição dos mercados. Para alguém ter dois euros num mercado com três para três pessoas, há alguém que se fode. No mundo em que vivemos, isso resolve-se pedindo dinheiro emprestado. Até quando? Quem duvidar que atente nas causas da crise: a falência do pequeno crédito, usado pelo cidadão-comum norte-americano para se abastecer das futilidades apregoadas como parte do “american dream” precisamente porque não pode pagar esse mesmo sonho que, afinal, não passa de um grande embuste.

 

10) Há uma geração inteira à rasca. E uma outra que teve o 25 de Abril porque um punhado de militares lhes ofereceu. Seguiram-se os tachos na função pública, nas melhores empresas, as reformas, uma vida confortável. E nós, seus filhos? Comemos com os recibos verdes, as bolsas, o desemprego, os call-centers, essa aberração que é o "out-sourcing" e na volta ainda os contratos "orais" de que andou para aí a falar o betinho que aparentemente vai ser o fututo PM. 

 

11) Nós somos nada. Somos mão-de-obra barata. Somos mercado de futilidades. Somos precários. E para quê? Para aumentar a margem de lucro de uns poucos. E somos burros. Muito burros. Burros porque nos aborrece pensar. Burros porque deixamos outros pensar por nós. Burros porque os políticos que deixamos que nos liderem são medíocres, tal como os que se lhes opõem. Sim, porque não é a esquerda "chic" da brigada anti-gravata (espécie de antecâmara dos PSDs) nem o repetivismo norte-coreano quem vai agregar os descontentes deste país, ou outros. Neste século não há cérebros nem líderes. Apenas cegos, à beira de um barranco.

 

Resta-me contratular por ninguém se interessar por nada do que aqui escrevo. Se vivêssemos no tempo da Velha Senhora, estaria já a caminho do Aljube.

 


publicado por Harpad às 23:41
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Domingo, 19 de Dezembro de 2010

A importância de se ser carneiro

estou farto farto farto ouviram farto farto de acordar em sobressalto a perguntar se já fomos invadidos pelo fmi pela gripe das aves pela gripe dos porcos há hi ho já nem há açúcar a gasolina vai aumentar o défice continua a crescer o ordenado vai descer vai-se acabar o subsídio de desemprego ora que porra nunca tive direito a ele por mais que tivesse trabalhado afinal é mais fácil ser despedido mas que interessa se o que faço nem consta como trabalho estou farto farto farto da merda destes jornaleiros dizem que se acabou o açúcar o bacalhau e o papel de limpar o rabo que vai ser de nós agora que o mundo está a aquecer quando o que eu tenho é um frio do caralho e nem posso fazer nada quanto a isso porque já me vão aumentar a electricidade e o combustível faz mal ao ambiente porra ai iu eles falam e lá vão os carneiros para o supermercado encher os carrinhos de açúcar que lhes vai chegar até às rabanadas do próximo século mas quem quem porra são estes comentadores académicos políticos e economistas que fazem da minha vida um inferno com quem pensam estes gajos que estão a falar eu sei ler e escrever eu trabalho eu penso eu existo porque tenho que ouvir dia após dia os devaneios alarmistas de brochistas à procura de poleiro de senhores de letras com doutoramentos em filologia eu que tenho um em ciências eu que passo ano após ano a tentar ensinar que o mal está em ser-se medíocre porque tenho que dormir pouco e mal e fugir de tudo e de todos para ter dois segundos de paz mas não posso fugir não posso atravessar sequer a estrada porque vou ser atropelado pelos carneiros que vão ao supermercado a correr comprar o açúcar que ai ui se vai acabar e o fmi que está a chegar porque tenho que ver este mar de cabeças de gado que ruminam lugares-comuns e nada mais para além de abanar o badalo quando o cão-pastor lhes diz para mudar de pasto ruim para pasto de coisa nenhuma e eles vão oh sim eles vão a dizer que a culpa é do aquecimento global a culpa é do trocas a culpa é do carneiro ao lado a culpa é da chuva do frio do preço do pitróil quando o pastor está a guardar o melhor pasto para engordar a vaca que encontrou num bar de rameiras oxigenadas da linha de cascais e venham depois as meninas de bem dizer que abortar é mau e que o papa é bom e que os pobrezinhos são sujos e viva el-rei esta canalha que nunca sujou as mãos na terra de onde saem as couves que não destrói a espinha a acarretar os baldes de massa com que lhes constroem gigantescas casas de putas e desmancham na suíça se engravidam do preto que lhes amanha o jardim da mansão onde vivem mantidas pelo filhos dum cabrão que enriquecem à custa de despedir mentir e fugir aos impostos e já agora porque pago eu vinte por cento com a merda do recibo inventado pela alimária que vocês carneiros elegeram para presidente quando gajos que vivem em palácios pagam quarenta e ganham dez cem mil vezes mais porque querem foder a vida a todos nós por seis sete ou nove ou sejam dez por cento de défice quando economias paralelas fugas aos impostos luvas e mais valias sem direito a tributação foda-se abram os olhos seus carneiros de merda que vos querem foder a vida para não pisar os calos aos ricos aos corruptos e aos espertalhões ponham coelhos no poder e vão vê-los a comer as cenouras e vocês nem a rama

 

pensam que podem falar assim com toda a gente quem pensam que estão enganar estes velhos estes jornalistas de segundas estes meninos betinhos quando dia após dia me atiram tanta desgraça à cara quem são estes gajos com a peida bem sentada no topo da cadeia alimentar para dizer que isto está mal mal mas mesmo muito mal vão-se embora então desapareçam da minha vista nós pegamos na merda que fizeram por incompetência oportunismo e negligência e pomo-la a andar direitinho seus inúteis não pensem que a economia é difícil por mais termos catitas que inventem seus pentelhos ai au o spin-off ai ui o spread difícil seria eu tentar explicar-vos para que serve uma citocromo c oxidase e como funciona seus energúmenos e garanto-vos isso sim que sem ela não vivem por mais que venha por aí o fundo merdoso internacional dizer que vai invadir a minha terra e pôr o meu povo de grilhetas tudo tudo para que os mesmos cabrões que daqui saíram com o cuzinho apertado assim que soou o vinte-e-cinco de Abril borrados de medo para o Brasil não paguem os impostos que devem para terem dinheiro para engordar as putas vacas gordas de que tanto gostam abram os olhos seus carneiros de merda que vos mentem todos os dias todas as outras e vocês comem toda a aldrabice que vos atiram à cara nos jornais na televisão na rádio na internet essa coisa que serve para os ignorantes inventarem e propagarem a sua própria História mémémé abram os olhos seus cornos de merda que vos vão abrir para costeletas e bofes para alimentar os ricos e fartos desta terra e arredores que no fundo vocês adorariam ser méééé dizem que o diabo inventou os impostos e vocês morrem a pensar que com o ar se constroem escolas e hospitais vá encham-se encham-se de tralha de que não precisam mééééééé irão lembrar-se do serviço nacional de saúde quando estiveram a apodrecer numa cama de pardieiro porque não podem pagar seguro de saúde mémémééé porque se o fizessem não haveria consola para o fedelho analfabeto que criaram em casa à vossa triste imagem porque não há impostos para pagar ensino público e o que mais me fode no meio disto tudo é não ter o tempo o talento e frequentemente a vontade para vos dar um chuto no cu maior do que escrever esta merda de texto para ver se acordam seus coirões abram os olhos e aprendam a pensar pelas vossas próprias cabeças que não são os futebóis quem vos põe o pãozinho na mesa e enquanto discutem vocês o lance já vos pregaram uma rasteira à liberdade que a tantos custou a ganhar


publicado por Harpad às 16:46
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Segunda-feira, 27 de Julho de 2009

XXI Ocidental - II

A História é cíclica. Parece repetir-se com um movimento pendular. O século XXI inicia-se em moldes semelhantes aos do século que lhe precedeu: a sociedade voltou ao falso puritanismo, ao conservadorismo, ao louvor da riqueza e da posse e até ao nacionalismo. Libertas do fardo da Guerra Fria e do inevitável debate "esquerda"/direita" que despoletou, as massas renegaram os ideais e tornaram-se sedentas de luxo. A sangria de riqueza dos mercados para os bolsos de poucos levaram milhões a endividar-se, afinal, numa tentativa de perseguir vã de perseguir o Grande Sonho Capitalista que lhes é prometido pelo menos desde a XX Grande Guerra. O resultado é uma Crise, aparentemente uma de entre muitas apregoadas como bandeiras de propaganda política (e como justificação da inépcia). Dir-se-iam consecutivas, embora esta pareça mais real e mais forte.

A abstenção aumenta em todos os países desenvolvidos. Por todo o lado despontam críticos mas não verdadeiros pensadores. Os novos meios de comunicação, ao invés de se tornarem veículos de ideais e ideais são refúgios solitários onde poucos escapam à regra do anonimato porque a tal luxo se podem dar. Existem represálias, sim. Casos não faltam, murmurados pelos cantos dos jornais. Anos antes seriam considerados verdadeiros escândalos, de momento ninguém se interessa. Agora não são necessárias polícias políticas mas apenas uma sociedade perfeitamente capaz de se auto-censurar com tenacidade. A liberdade perde valor, a democracia nada significa para muitos que dela usufruem. De bom grado ambas são trocadas pela ilusão do Grande Sonho.

Os verdadeiros valores foram esquecidos. Longe dos tempos de fome, os habitantes do mundo civilizado pouco se interessam pelo social, por tudo o que não seja imediatamente satisfatório, pelo vizinho. Não há líderes, apenas críticos e oportunistas. A política democrática, ao invés de estar nas mãos dos povos está entregue a um grupo de políticos profissionais que vieram substituir a aristocracia de tempos idos mas que representa, ainda e sempre, os interesses da burguesia. Longe dos tempos de fome? A história repete-se, convém lembrarmo-nos. Pela primeira vez em muito tempo existe uma geração de jovens trabalhadores de países desenvolvidos com menos qualidade de vida, e futuro, do que os seus pais. Crise? A História repete-se. E mesmo quando esta crise se encontra prevista desde 1847 .


publicado por Harpad às 01:56
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Sexta-feira, 25 de Abril de 2008

25 de Abril - da liberdade, da memória e da falta de ambas

É sempre engraçado ouvir um discurso do senhor Presidente da República sobre o 25 de Abril, principalmente quando boa parte dele se baseia no alheamento dos jovens em relação ao 25 de Abril, aos seus ideais e da política que rege a sociedade no seu geral. Sinto-me num permanentemente num mundo Orwelliano, se calhar as manifestações de estudantes onde estive quando o senhor Cavaco Silva era Primeiro Ministro não passaram de uma alucinação colectiva, tal como a pretensão de reduzir (para acabar?) os festejos do 25 de Abril e o seu ensino nas escolas. O tempo em que o homem mandou no país foi o período em que mais bastonadas a polícia distribuiu pela populaça, sem esquecer uns tiritos e jactos de água. Foi o tempo do diálogo social nulo, o tempo em que eu e muitos, muitos, outros que hoje trabalham até cairem para o lado para pôr isto a funcionar sem que alguém se importe com os resultados e suas dificuldades, passámos a ser chamados de Rascas. Sim, eu estava lá, nesse preciso momento, e nem precisei de mostrar o traseiro para assim ser apelidado. Deve existir algum Ministério da Verdade a eliminar certos períodos da nossa história, só que em vez de se ficar pelos jornais e afins deve eliminá-los também da nossa memória colectiva. Só assim se explica que o homem tenha sido eleito para  o cargo de Presidente da República.

 

Felizmente não se assistiu ao fedelho do CDS-PP falar no "PREC em que nos encontramos" tal como o fez num dos congressos do seu triste partido, transmitidos pela televisão como uma telenovela foleira. É patético ver um indivíduo com demasiados genes em homozigotia, vindo de uma família que viu o 25 de Abril como uma catástrofe falar desta data mas, infelizmente, alguns dos seus colegas ousaram fazê-lo na Assembleia da República, falando da família e dos seus problemas quando os queques, aristocratas, patos bravos e novos ricos que representam são os tipos que perguntam às mulheres que realizam uma entrevista de emprego se pretendem engravidar e que as despedem quando tal calamidade acontece. são os gajos que especulam com o valor do nosso dinheiro, das casas e dos bens de primeira necessidade em geral, tornando a nossa vida muito complicada, mesmo para quem não tem filhos. Os senhores do PP vivem numa espécie de realidade cor-de-rosa desconhecida para o povo comum, a realidade de quem tem dinheiro garantido à nascença e vê as políticas sociais como uma entrave (tipo PREC) para o seu enriquecimento.

 

Quem ouvir falar (e escrever) certos indivíduos, como o autor de um livro que fala da "revolução da perfídia" (entenda-se o 25 de Abril), como uma revolta marxista talvez fique convencido (ou não, pensando bem) que vivemos numa RSS. Não li este livro, acabei de ler sobre ele uma notícia num jornal. Espero estar redondamente equivocado sobre o seu conteúdo. Pois é. A inflacção, os juros bancários insuportáveis, a destruição das políticas sociais, a precariedade do emprego e outros, muitos outros problemas que se colocam aos portugueses (principalmente aos jovens trabalhadores que nada, absolutamente nada têm de garantido para o seu futuro, são fruto do bolchevismo em que vivemos. O capitalismo deve ser uma espécie de El-Dorado que nunca se chegou a concretizar. Talvez não seja necessário um Ministério da Verdade, enquanto ecrãs de plasma, automóveis de luxo, telemóveis e outras futilidades forem o que realmente importa para a população ocidental, o preço dos alimentos, das casas, da saúde e da educação continuarão a aumentar. Parece que precisamos de passar fome para abrirmos os olhitos. Começou com o arroz, mais se seguirão. É o custo da especulação que mantém a grandiosidade da nossa preciosa economia de mercado.

 

Para Pachecos Pereiras e outros fidalgos da direita gostaria de perguntar o que entendem por Democracia, porque ainda não percebi o que nos pretendem impingir. Talvez o que me custe mais a entender seja o conceito de mentira. Talvez o doutor Pacheco já se faça reger pelo novo acordo ortográfico, ao contrário de mim, mas para mim quando alguém expõe um vídeo onde se vêm os supostos laboratórios móveis de armas químicas do Iraque como pretexto para começar uma guerra que, afinal, nunca chegaram a existir, essa pessoa MENTE. Não é uma simples convicção. As convicções, por mais básicas que sejam, não pressupõem inventar coisas que nunca existiram. Quando tal acontece temos uma MENTIRA. Os governantes do mundo democrático não podem, por definição, MENTIR. Quando poucos fazem guerras, o que já é suficientemente mau, e o fazem por motivos obscuros, quando a maioria não quer não estamos na presença de uma decisão democrática. O doutor Pacheco está muito ofendido porque eu e muitos não concordamos com ele. O direito à discória faz parte, isso sim, da Democracia mas ele deve-se ter esquecido disso quando escreveu e publicou uma carta particularmente insultuosa a Mia Couto na sequência da decisão de invasão do Iraque. Parece-me que para o doutor Pacheco e outros a democracia é uma coisa maravilhosa sempre que toda a gente concorda com eles.

 

A democracia não se limita ao sufrágio, para quem ainda não percebeu. Os principais partidos (todos os dois deles) prefeririam revezar as suas maiorias absolutas, alternando cada dois mandatos. Se tal acontecesse, o sufrágio passaria a ser meramente simbólico, tal como o direito a discordar dos dois partidos, tal como o direito a negociar políticas sociais, leis e questões económicas. A  Europa caminha para uma espécie de governos de direito privado. O capitalismo adoraria que os governos contratassem abertamente empresas que gerissem os povos. Digo abertamente porque isso já acontece nos bastidores. A promiscuidade entre corporações, ministros e secretários de estados (os políticos profissionais, essa elite) é doença crónica da democracia. Nós, o povito, estamos na mão de uma minoria. É isto a democracia? O que aconteceu à memória de Abril?


publicado por Harpad às 13:17
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